sexta-feira, 10 de abril de 2020

RESENHA: “FOUCAULT E A EDUCAÇÃO”


VEIGA NETO, Alfredo. Foucault e a Educação. 2 ed. Belo Horizonte: Autentica, 2007. 160 p.

“Foucault e a Educação” é um livro produzido por Alfredo José Veiga Neto. Ele é Graduado em História Natural (1964-1967) e em Música (1957-1963), tem Mestrado em Genética e Biologia Molecular (1972-1975) e é Doutor em Educação (1992-1996), toda sua formação foi na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde atualmente é professor no Programa de Pós-Graduação, coordenando o grupo de estudos e pesquisa em Currículo e Pós-Modernidade. Veiga tem experiência na área de Educação, atuando principalmente nos seguintes temas: currículo, estudos foucaultianos, crítica pós-estruturalista e interdisciplinaridade. 
O livro, “Foucault e a Educação”, foi produzido pela Editora Autêntica e faz parte da coletânea Pesadores & Educação. A obra resenhada é da segunda edição, 2017, e possui 160 páginas. É resultado de diversos anos de pesquisas para a construção da sua tese de doutoramento, e nela ele se debruça acerca do filosofo francês, Michel de Foucault, e as suas contribuições para a área da educação. O livro inicia-se com uma apresentação, tem quatro partes e 10 capítulos. Ele é didático e conta com uma linguagem clara, nos ajudando a identificar o presente das práticas educacionais de maneira a problematizar as forças que as movem.
A primeira parte intitulada “Situando” possui apenas o capítulo 1. No primeiro capítulo “Situando Foucault” ele busca classificar o filosofo, apontando-o como o intelectual que melhor definiu as práticas e os saberes dos últimos séculos e a formação do sujeito moderno. Entretanto, o autor chama a atenção ao destacar que é mais válido falar em teorizações foucaultianas que em teorias foucaultianas. Está conduta evitaria dois equívocos: o primeiro é que o encaixe dos conceitos foucaultianos em toda e qualquer situação não é possível, pois é importante entender inicialmente que essas teorizações não devem ser encaixadas em todo ou qualquer objeto de investigação; e a segunda é pensar que todos os problemas de pesquisa estão livres no mundo esperando apenas uma teoria para serem investigados. E, apesar de Foucault ser um crítico da modernidade, isso não significa dizer que ele vá contra tudo que o pensamento moderno defende o que ele crítica na realidade é a ideia iluminista, unificadora da razão.
A segunda parte nomeada de “Domínios foucaultianos” vai do capítulo 2 até o capítulo 5. No segundo capítulo, “Os três Foucault? Ou a sempre difícil sistematização”, o autor aponta que normalmente o trabalho do filosofo é dividido três fases: arqueologia; genealogia; e ética. Contudo, ele explica que ao invés de usar as palavras fases ou eixos é mais recomendável usar a expressão “domínio”, que seriam: o ser-saber, o ser-poder e o ser-consigo. Esses domínios são mais bem explanados nos capítulos seguintes.
No terceiro capítulo, “O primeiro domínio: o ser-saber”, ele evidência os livros “As palavras e as coisas” e “A arqueologia do Saber” como os que melhor definem o primeiro domínio foucaultiano. No primeiro livro é onde a arqueologia aparece pela primeira vez, ela, nessa obra, pode ser chamada também de percepção para se referir a um saber que está além do conhecimento sistematizado. No segundo livro ele explicou como nos tornamos na modernidade sujeitos de conhecimento e assujeitados ao conhecimento, sendo assim o homem moderno não produz saberes, ele seria, neste caso, um produto dos saberes. Assim, não busca explicar os discursos, tão pouco a sua origem, procura as teias discursivas nas quais ele é formado.
No quarto capítulo, “O segundo domínio: o ser-poder”, ele procura explicar o processo de genealogia e a sua priori histórica, processo em que são as regras de produção de discursos que se encontram internas ao discurso. Formando, desse modo, não apenas os procedimentos necessários para entender o passado, mas também nos dando armas para nós revelarmos contra o presente. Os livros dessa fase são “A Ordem do Discurso”, “Vigiar e Punir” e “História da Sexualidade – A Vontade de Saber”.
No quinto capítulo, “O terceiro domínio: O ser-consigo”, o autor aponta que Foucault definiu esse domínio nos últimos anos da década de 1970 através da publicação de “História da Sexualidade” volumes dois e três. O interesse do filósofo estava em estudar a sexualidade e como foi que cresceu tanto a problematização em torno dela, para tanto, ele observou os saberes médicos, judiciais, sociológicos, entre outros. Assim, a ética se faz presente em seu estudo ao observar a moral, o comportamento, a origem dos códigos e as prescrições, percebendo a relação de si para consigo.
A terceira parte nomeada de “Temas foucaultianos” vai do capítulo 6 ao capítulo 8. No sexto capítulo, “Linguagem, discursos, enunciados, arquivos, episteme...”, o autor discorre sobre os conceitos que o próprio título do capítulo carrega, possibilitando ao leitor um melhor entendimento de suas teorizações. Nele também é citado as ideias de verdade e não verdade que um discurso pode compor.
No sétimo capítulo, “O sujeito”, temos a imagem do sujeito vista sobre a perspectiva de uma construção, esta motivada pelas práticas discursivas que convertem os seres humanos em sujeitos. Com isso, Foucault acredita que o sujeito não é algo pré-existente, mas sim construído. Está, defende o autor, talvez seja uma das contribuições mais importantes do filósofo para a educação, pois a escola é uma instituição produtora de sujeitos.
No oitavo capítulo, “O poder-saber”, Veiga aponta as articulações entre o saber e o poder. Está relação se deu ao perceber que os saberes vigentes atendem a uma vontade de poder e acabam se transformando em correntes propagadoras do próprio poder. Um poder que não é macro, mas sim micro, que não é fixo, é móvel, que pode estar presentes numa relação entre duas pessoas, quanto também podem partir de uma instituição. Isto é, o poder caminha por todas as esferas da sociedade, seja ela pública ou privada.
A quarta parte, “Tempos e lugares foucaultianos” vai do capítulo nove ao dez. São os menores capítulos do livro. No capítulo 9, “Cronologias foucaltianas”, o autor traz uma brevíssima reconstituição da vida privada e profissional de Foucault. No capítulo 10, “Sites de interesse na internet”, Veiga elenca uma série de sites que podem contribuir para. um estudo mais aprofundado sobre as questões foucaultianas.
“Foucault e a educação” é um livro que trás uma linguagem bastante acessível, além de citar e explicar um número considerável dos conceitos de maneira clara e objetiva evitando a rigidez de uma escrita travada. Ele contribui bastante em nossa reflexão sobre a educação vista sobre a lente de Foucault, nos fazendo refletir que nenhum sujeito é neutro e que para se construir ele é atravessado por vários feixes discursivos que são também vontades de saber e de poder.
Portanto, ele ilumina métodos, categorias, domínios, além de apontá-los dentro do diálogo educacional. Não se retendo a apenas as informações que esmiuçou durante o decorrer de sua escrita o autor faz uma importante contribuição de outras fontes que podem auxiliar o leitor a um maior aprofundamento das questões expostas. Assim, podemos considerar a sua avaliação de maneira positiva.
Recomento este livro para graduandos em cursos de licenciatura das mais diversas áreas de conhecimento, pois ele ajuda a observar o campo educacional com uma maior criticidade, permitindo enxergar o ser humano como sujeitos frutos de produções discursivas e, assim, entende-los como frutos de um grupo social. A partir do momento que enxergamos um aluno deste modo podemos planejar uma conduta profissional que tenha efeitos mais satisfatórios dentro da realidade escolar. Com a leitura de livros como esse, na graduação, construímos professores melhor preparados para a prática docente. Ele também é ideal para profissionais já licenciados que tem o interesse de se aprofundar nas maquinarias sociais movidas pelos discursos, pelo saber e pelo poder. E para todo pesquisador que se familiariza com as questões trazidas por Foucault.

DOCUMENTO/MONUMENTO


 Ao buscar entender como funciona a memória coletiva e a história, devemos levar em consideração que ela é observada através da ótica: documento e monumento. Estes vestígios que chegam até nós, deixam de ser compreendidos como meros resquícios do passado, deixam de serem testemunhos fieis e completamente confiáveis. Agora, eles passam a ser entendidos como resultado de uma equação de forças que operam na sociedade. Podem ser considerados como objetos cujas preocupações giram em torno de passar efeitos de verdade que atendam a um determinado lugar discursivo.
Diante desse contexto, as matérias da memória podem ter duas formas principais: a primeira delas é um monumento. Ele é o que se refere a uma herança do passado, estando intimamente ligado à memória ao ato de rememorar, de relembrar, de recordar, de evocar o passado; e a segunda é o documento que é fruto da escolha do historiador, está ligado ao ato de ensinar, de registrar, de provar, e de ensinar através do conhecimento gerado na pesquisa, perpetuado e “eternizado” na escrita.
Podemos afirmar que durante muito tempo o documento superou o monumento na produção historiográfica, tendo em vista que, o espírito positivista se instalou na escrita da história. Entretanto, antes disso, o termo monumento foi encontrado em diversos registros realizados na Idade Moderna, por exemplo, foi utilizado, em 1759, por Nicolas Morea, historiógrafo francês e pelo inspetor geral Bertin, em 1837, por Augustin Thierry, entre outros.
No século XIX o termo monumento foi usado para se referir as grandes coleções de documentos que eram produzidos na época como é o caso, por exemplo, do Monumenta Germanie historica, publicado em 1826. Contudo, de maneira geral, o termo documento foi colocado em primeiro plano principalmente quando observamos a historiografia europeia durante o final do século anteriormente citado e no decorrer do século XX. Neste período iremos perceber o declínio do monumento e ascensão do documento.
Este fortalecimento e poder do documento se deram com auxílio da escola positivista. A partir do advento dela todo historiador considerará o documento escrito como ferramenta essencial do seu trabalho, pois sem este artefato, para eles, seria impossível fazer história visto que a fonte escrita e oficial eram as únicas consideradas detentoras da verdade, e, portanto, dignas de serem responsáveis por narrar os acontecimentos. Nessa concepção, dos ideais positivistas, a ideia de documento continua sendo a mesma.
Contudo, em 1929, com a fundação da revista Annales d’histoire économique et sociale a ideia que os historiadores tinham sobre documento histórico começa a passar pelo seu processo de transformação e expansão. Nesse instante alguns profissionais passaram a se questionar acerca do uso dos documentos e a pensar se apenas um tipo de documento seria suficiente para a construção da história, até mesmo porque eles eram limitados enquanto ao grupo social que representavam.
Através dessas questões levantadas pelos Annales, os pesquisadores concluíram que o documento poderia abarcar mais fontes, além das escritas, e, assim, trazer um sentido mais amplo para a história ao aceitar como fonte as ilustrações, as imagens, as oralidades, entre outros, que se tornariam essenciais para um trabalho mais completo, mais abrangente e que poderia auxiliar em uma escrita mais plural. Com isso, estas mudanças levaram ao que passou a ser chamado de uma revolução documental, que poderia ser classificada tanto como qualitativa quanto como quantitativa.
O interesse em relação à memória coletiva também muda de foco, além de ser considerada, a partir de então, como um patrimônio cultural. Os historiadores não mais se preocupam em narrar, apenas, à história dos considerados grandes homens, que seriam aqueles que teriam realizado os ditos grandes feitos, porém dão visibilidade aos outros lugares sociais, lugares que antes se encontravam silenciados, calados, amordaçados, um bom exemplo seria as mulheres que a partir desse instante emergiram como participantes da produção da história, como protagonistas.
Com a fundação dos Annales, além de todas as transformações expostas, houve uma crítica em relação ao documento, ao caráter passivo do historiador e a falta de criticidade. Diante da ilusão positivista de que todo documento seria autêntico e traria a verdade absoluta sobre os acontecimentos, muitas vezes, o pesquisador se esquecia de questionar se realmente ele estava trazendo dados verídicos ou se haviam sido manipulados por um grupo que pretendia mascarar certos dados.
Portanto, a Annales permitiu que houvesse uma crítica ao documento, enquanto monumento, enxergando-o como produto das forças da sociedade que o produziu, um produto que ao primeiro olhar se esconde por traz de uma maquiagem, uma roupagem, pois ele nunca se mostra no primeiro momento do contato, ele nunca é inocente. Olhar dessa forma para o seu objeto de pesquisa é realizar um processo de transformação de um documento para um monumento (que é o método seguido pelos historiados atuais que simpatizam com essa vertente), entendendo-o como uma ação consciente ou inconsciente de todos os partícipes da sociedade que não pode ser isolado do ambiente e das demais interferências que os evocaram.

A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE


A construção da identidade não é algo natural. É uma construção produzida em um local determinado, é partilhada por um grupo e por uma cultura composta de diversas práticas cotidianas, portanto, ela é relacional, dinâmica e histórica. A produção da identidade não ocorre do dia para a noite, não é definida por um comitê, ela vai se construindo através de práticas culturais, relações entre povos, jogos de poder, ao longo do temo.
O homem já nasce em uma cultura pré-definida e vai sendo moldado nela, absorvendo as verdades que vão se constituindo através da crítica de todos os discursos institucionais que o sujeito escuta durante a sua vida. O homem morre, porém a conservação da identidade, plural e diversificada, prossegue. É uma marca deixada pelo se humano da sua passagem pela terra. Não conseguimos viver sem classificar as pessoas e ordenar as coisas ou sem comparar o eu e o outro. E esta comparação é realizada de acordo com as diferença entre as identidades.
Só sabemos que existe uma diversidade de identidades devido à existência de outras identidades que marcam, evidenciam as diferenças, por isso, a relação com o outro é fundamental para a percepção dos grupos e, consequentemente, para marcar a exclusão. Isto, porque, dependendo dos conjuntos simbólicos que uma pessoa carrega podemos definir se ela pertence ou não a determinada identidade, então, nós podemos inclui-la ou exclui-la a determinado campo de pertencimento.
Para pertencer a uma identidade o individuo tem por obrigação fazer uso de objetos, de materiais que possuem sua carga de significados para eles, o que pode provocar conflitos entre identidades distintas, como bem coloca Woodward:

O cigarro [usados pelos servos e croatas] funciona, assim, neste caso, como um significante [grifo nosso] importante da diferença e da identidade e, além disso, como um significante que é, com frequência, associado à masculinidade (tal como na canção dos Rolling Stones, “Satisfaction”: “Bem, ele não pode ser um homem porque não fuma os mesmos cigarros que eu”) [...] O homem da milícia sérvia é explicito quanto a essa referência, mas menos direto quanto a outros significantes da identidade, tais como as associações com a sofisticação da cultura europeia [...] (WOODWARD, 2014, 10 p.).


O trecho acima nos chama a atenção, inclusive, há outro aspecto da identidade de uma nação: as questões de gênero. As maiorias das identidades estão ligadas as concepções de gênero, em que a força da influencia gira principalmente de maneira mais forte em torno das concepções militarista da masculinidade. Deste modo, as mulheres ocupam um espaço secundário tendo em vista que até mesmo a ideia do que é ser mulher, ser feminina, mãe, filha, irmã, foi construída de acordo com as posições de sujeito que o homem define para mulher. Nesta definição ele toma como pressuposto os padrões do que é ser masculino para definir o que é ser feminino, entrando, nesse contexto, mais uma vez, o outro, o diferente, para a percepção das múltiplas identidades, como bem aponta Woodward (2014):

A única menção a mulheres, neste caso, é às “garotas” que eles “namoravam”, ou melhor, que foram “namoradas” no passado, antes do surgimento do conflito. As mulheres são os significantes de uma identidade masculina partilhada, mas agora fragmentada e reconstruída, formando identidades nacionais distintas, opostas. Neste momento histórico específico, as diferenças entre os homens são maiores que quaisquer similaridades, uma vez que o foco está colocado nas identidades nacionais em conflito. A identidade é marcada pela diferença, mas parece que algumas diferenças - neste caso entre grupos étnicos - são vistas como mais importantes que outras, especialmente em lugares particulares e em momentos particulares (WOODWARD, 2014, 9-10 p.).

Portanto, pensar o outro sempre será uma comparação entre mundos. E estes mundos estão, a cada dia, mais próximos devido ao advento da globalização. Atualmente é possível, principalmente, nas grandes metrópoles e capitais, termos a disponibilidade de frequentar lojas e restaurantes que trazem elementos físicos e degustativos de outras regiões do mundo. Um contato mais próximo com o outro e a sua identidade.
Porém, de maneira geral, o cinema é um ponto central no deslocamento cultural visto que as imagens exibidas nas telas produzem diversos significados simbólicos que provocam desejos conscientes e inconscientes pela identidade do outro. Ele é uma ferramenta que nos desloca para a realidade do outro mesmo que este não esteja presente. Estes leques de representações de identidades revelam relações de poder, é um jogo entre culturas, em que as forças definem que identidades serão incluídas ou excluídas no jogo politico, assim como definem as identidades consideradas superiores e as que serão consideradas inferiores.
discuta sobre os modelos de análise, mas também sobre os efeitos culturais, simbólicos e políticos da produção da alteridade em relações de poder difusas, mas articuladas a estratégias de governo ou intervenção na vida pública. Quem é o outro? E por quais razões se pode pensar que ele é “uma ausência permanentemente presente” no mundo contemporâneo e no cenário educacional?

Quando partimos para o campo educacional
Por que falar dessas definições de professores para pensar o outro e a sua ausência presente no cenário de educação atual? Porque o professor ao analisar a educação com a ótica do presente vai levar em consideração os seus pressupostos culturais, a sua identidade particular, portanto, identificar as misérias das salas de aula com o olhar selecionador, com uma peneira que escolhe apenas aquilo que a sua identidade permite pensar como ruim. Assim, não apenas os professores, mas todos nos vemos:

o Outro, não de qualquer maneira, mas a partir do nosso patrimônio, a partir de nossa Consciência Humanitária, isto é, como “vítima” – a ser socorrida, com a qual solidariza-se, a ser liberada, à qual deve ser concedida a palavra, a ser integrada – ou como “culpável” – que  deve ser desmascarada, denunciada, dissuadida, perseguida, expulsa e justiçada – garantindo-nos assim o espetáculo de um Ocidente comprometido com “os direitos do homem” e com a humanização do mundo. (81 p.)

Pensar o outro com o olhar de alteridade é pensar o outro como objeto de ação que pode nos proporcionar, através do seu lugar de diferença, novos conhecimentos. No ocidente a identidade do outro, de uma cultura diferente poder ser capaz de emergir, mas diante de uma seleção em que nos o identificamos, registramos, o fazemos visíveis, apontamos as suas semelhanças e diferenças, que são cuidadosamente observados. Mas, nessa relação de escolher e definir há uma troca, pois ao mesmo tempo em que estamos observando a cultura do outro também o estamos dando um pouco da nossa cultura, inserindo “nossa miséria, nossa soberba, nossa arbitrariedade, nossa mortalidade e nossa finitude” (PLACER, 2001, 88 p.). Sendo assim, para pensá-lo temos que entender a nós mesmo, identificar sobre o que cremos, quem somos, nos revelarmos.

A INVENÇÃO DO COTIDIANO - MICHEL CERTEAU


Foi no ano de 1980, após um período de intensa pesquisa, que o livro escrito por Michel de Certeau, A invenção do Cotidiano, foi publicado pela primeira vez. Certeau é um historiador reconhecido internacionalmente devido a sua respeitavelmente produção científica. Em suas publicações ele questionou a noção de verdade e as ideias cristalizadas que existiam entorno das instituições de saberes. Destarte, o também jesuíta, propõe, principalmente através desta obra, que as relações de consumo não são tão passivas quanto era pensado, mas que devemos nos atentar para as práticas de desvios que eram realizadas pelos consumidores quando eles faziam uso de determinados produtos.
Para tanto, ele estava determinado a resistir aos ilusionistas resultados numéricos dados pelos métodos quantitativos e se direcionar as teorias das práticas cotidianas. De acordo com o seu objetivo e as suas principais orientações, ele refletiu sobre uma cultura da sociedade ligada ao comum, a uma maneira de praticar, de se apropriar e reapropriar, que também podem ser entendidas como práticas de resistências ou de inércia, isto é, as astúcias de uma rede de antidisciplinas. Acredita-se, pois, que o termo “antidisciplinas” seja um reflexo da sua pesquisa em resposta a de Michel Foucault em seu livro Vigiar e Punir.
Portanto, a obra A invenção do cotidiano: a arte de fazer, narra às práticas comuns realizadas em um espaço de teias de solidariedade e ações de luta. Estas ligadas a maneira de viver, de fazer, como o próprio subtítulo já traz, por isso, a análise certamente está voltada às variantes do seu objeto e da realização de uma cultura ordinária. Através desta ótica, o indivíduo deixa de ser, apenas, observado enquanto um operário normatizado na sociedade.
Admite-se que o consumidor não estava exercendo a sua condição de maneira passiva e disciplinada. Ele passa a ser observado de maneira mais criteriosa, maliciosa, desconfiada. Ele é visto em sua particularidade, e, assim, podemos perceber que na realidade a relação social determina seus termos e não são os termos que a determinam, e que “a individualidade é o lugar onde atua a pluralidade” (CERTEAU, 2017, p 38). Nesta rota de reflexão, a pesquisa busca

explicitar as combinatórias de operações que compõem também (sem ser exclusivamente) uma “cultura” e exumar os modelos de ação característicos dos usuários, dos quais se esconde, sob o pudico nome de consumidores, o estatuto de dominados (o que não quer dizer passivos ou dóceis). O cotidiano se inventa com mil maneiras de caça não autorizada (CERTEAU, 2017, p.38).
           
Percebe-se que o uso ou o consumo não são feitos, de acordo com Certeau, de maneira passiva, mas são fabricados. Os consumidores fazem uso de uma astúcia silenciada, eles caminham em campos que não permitem a sua visibilidade, eles agem devido à oportunidade da ocasião, sendo, desse modo, na maioria das vezes, não detectáveis. Com isso, percebe-se que por mais que a produção do produto seja feita alicerçada em paradigmas racionalizados, em lugares estratégicos, haverá sempre espaço para a clandestinidade. Pois, quando o astuto consumidor identifica a brecha, a falha, o ponto específico para ataque, o momento clandestino e propício para agir com cautela, para utilizar-se da arte de fazer, para realizar a inversão discreta, ele a faz.
 Para exemplificar os usos do produto pelos consumidores, pelos meios populares, contra as medidas impostas pela a elite produtora o autor fala da subversão dos indígenas e das suas práticas em um cotidiano do qual não poderiam fugir, de seus comportamentos que iam de encontro contra as normas estabelecidas pelas forças dominantes, pela onda colonizadora. Vejamos:

Assim o espetáculo sucesso da colonização espanhola o seio das etnias indígenas foi alterado pelo uso que dela se fazia: mesmo subjugados, ou ate consentindo, muitas vezes esses indígenas usavam as leis, as práticas e as representações que lhes eram impostas pela força ou pela sedução, para outros fins que não eram os dos conquistadores. Faziam com elas outras coisas, subvertiam-nas a partir de dentro – não rejeitando-as ou transformando-as  (isso acontecia também), mas por cem maneiras de emprega-las a serviço de regras, costumes ou convicções estranhas à colonização da qual não podiam fugir (CERTEAU, 2017, p. 94).

Este trecho citado anteriormente acaba fazendo-nos atentar para a questão de que existe uma distância entre a produção da imagem e a produção secundária. A distância está pautada na arte de fazer (de se apropriar e reapropriar) pertencente ao seu usuário e realizadas nos seus lugares, nos seus momentos, nas suas relações sociais que são regidas por suas próprias vontades e as suas próprias regras. Por conseguinte, o consumidor, tanto no lazer quanto no trabalho (áreas que se fundem) “possuem mil maneiras de ‘fazer com’” (CERTEAU, 2017, p. 91).
A disciplina, por consequência, em meio a todas as artes de “fazer com” acaba por torna-se quebrada por práticas microbianas, minúsculas, que são produzidas no cotidiano. Ela é rompida por táticas realizadas por pessoas que não estão satisfeitas com a norma. Nessa conjuntura acaba restando aos insatisfeitos, apenas, a alternativa de alterá-la e assim se propõem a formar, com isso, a rede de uma indisciplina. Esta é a arte de inverter as regras, de consumir, de utilizar ao seu bel prazer, em que a marginalidade individual acaba por se transformar em uma marginalidade coletiva.
Entretanto, não podemos confundir uma marginalidade de massa com uma ação homogênea, pois além da astúcia ser criativa e se manifesta de diversas maneiras, ela também é realizada em um campo de forças desiguais e não consegue gerar, nesse meio, os mesmos resultados. As táticas em sua maioria acabam por se desenvolver em detrimento de tensões e violência, partindo do fraco para adquirir, retirar, conseguir algum privilégio dos considerados como mais fortes. Nesta situação o lado mais fraco pelo menos em um instante consegue para si uma força momentânea.
De maneira geral, o autor utiliza dois conceitos fundamentais para falar dessa cultura que se prolifera nas relações e nas criações anônimas em meio a todo esse teatro de operações: a estratégia, representada pelas instituições (escolas, igrejas, exército – os produtores); e a tática representada pelas pessoas comuns (os chamados homens ordinários – os consumidores). A estratégia é o cálculo de manipulação, ela define um espaço, um lugar de querer e poder, uma base para conseguir controlar as relações, ter vantagens e exercer uma prática panóptica. Este lugar é dominado por forças que permitem observar e controlar. Antecipando porventura problemas que possam surgir. A estratégia tem como status as forças dominantes e, além de se manifestar através das instituições, se manifesta também através do uso dos seus produtos, por isso, é considerada inflexível.
Já a tática faz parte de uma situação calculada exercida no espaço do outro (em um não-lugar) devido ao fato de que ela não possui nenhuma base de operações. Atua no território inimigo. Aproveita as ocasiões, pois sem ela não há como usar a tática. Por isso podemos afirmar que ela possui mobilidade, que está sempre sorrateira, vigilante, a espreita, aguardando apenas que os espaços no território do outro se abram, se mostrem. Quem pratica a tática está sempre caçando, agindo nos pontos onde não se espera, no ponto fraco, de maneira ágil e flexível. Portanto, ela é comandada pelo acaso, pela ausência de poder, com a função de tornar a posição do mais fraco fortalecida mesmo que seja por um instante.
Contudo, a tática não enfrenta a estratégia de frente, não tenta dominá-la ou vencê-la, mas ela faz uso de uma máscara que aparentemente mostra conformidade de toda a situação. “Sem lugar próprio, sem visão globalizante, cega e perspicaz, [...] comandada pelos acasos do tempo, a tática é determinada ausência de poder assim como a estratégia é organizada pelo postulado de um poder” (CERTEAU, 2017, p. 101).
Então conforme as discussões estabelecidas em todo o texto nós podemos acompanhar a maneira na qual o autor analisa toda esta cultura de burla em uma sociedade que através das práticas cotidianas aproveitam as oportunidades de enfraquecimento das zonas de estratégias para fazerem uso da astúcia, para “fazer com”, para se fortalecer no território do outro.

KAFKA: POR UMA LITERATURA MENOR



 DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Félix. Kafka: por uma literatura menor. Tradução de Cíntia Vieira da Silva. Revisão da tradução: Luiz B. L. Orlandi. 1ª ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2017.

O livro escrito em conjunto por Gilles Deleuze e Félix Guattari, Kafka: por uma literatura menor, é uma narrativa que potencializa o devir e tem como pressuposto o caráter minoritário, revolucionário, político e, por isso, foi caracterizada como uma abordagem que pertence à literatura menor. Está obra foi publicada pela primeira vez no ano de 1975. O título da obra, acredita-se que, surgiu através da tradução do diário de Kafka que foi quando apareceu pela primeira vez à expressão em francês petites littératures, esta ideia de uma literatura pequena irá adquirir um sentido forte na obra de Deleuze e Guattari que trará, inclusive, está expressão traduzida como “literatura menor”.
Com o objetivo de observar o lugar social dos autores iremos fazer uma pequena explanação sobre eles. Deleuze nasceu em Paris no ano de 1925. Estudou filosofia na Sorbonne, onde conseguiu conquistar o diploma de Estudos Superiores no ano de 1947. Lecionou nos liceus de Amiens, Orléans e Louir-Le-Grand. Durante os anos de 1969 a 1987, foi professor na Universidade de Vincennes onde conheceu Guattari.  Felix Guattari nasceu em 1930 em Paris, foi um importante filósofo e psicanalista francês. O encontro entre os dois intelectuais resultou na criação de diversas obras.
Sobre a organização do livro referente à sua estrutura vemos que ele está dividido em nove capítulos nesta respectiva ordem: Conteúdo e expressão; Um Édipo exagerado; O que é uma literatura menor; As componentes da expressão; Imanência e desejo; Proliferação das séries; Os conectores; Blocos, séries, intensidades; O que é um agenciamento? A obra Foi traduzida por Cintia Vieira da Silva e publicada pela Editora Autêntica. É um livro de primeira edição que foi impresso no ano 2017.
Em Kafka: por uma literatura menor os autores realizam uma interpretação de uma nova literatura, de uma produção que possui várias entradas, uma máquina de produção de sentidos, seria está, pois, uma literatura menor. Entretanto, como primeiro ponto, vale destacar que, quando nos referimos em literatura menor, não podemos defini-la enquanto pertencente a um conjunto de número pequeno, mas pela distância que ela tem em relação a uma determinada característica dominante, portanto, podemos definir como minoria o grupo de elementos que representam a multiplicidade e a maioria é referente a um conjunto correspondente a generalidade normalizadora e global.
Sendo assim, a literatura menor, considerada como um rizoma, não pertence a uma língua menor, ela pertence a uma língua que uma minoria constrói em uma língua maior sendo afetada pela desterritorialização, está é a sua primeira característica. A segunda é que nesse tipo de literatura tudo é político indo contra a corrente das literaturas maiores que tende a ser individual. Na literatura menor os espaços fazem com que o individual esteja fortemente ligado à política. Com isso uma questão familiar, por exemplo, faria conexões não apenas com o particular, porém também com outras áreas como o comercial, o econômico, o jurídico, entre outros. E a terceira característica é a ação coletiva, pois a literatura encontra-se responsável por carregar positivamente a função de enunciação coletiva e revolucionária ao forjar meios de outras consciências, representações, identidades e sensibilidades.
A literatura revolucionária terá início com a anunciação, ela que tem como finalidade provocar rupturas, deixar marcas e produzir reflexões. Será uma máquina de guerra pronta para dar a voz aos silenciados pelo discurso da norma e da legitimação, pela representação engessada. Portanto, nunca, em nenhuma hipótese, a literatura deve ser considerada como um objeto neutro, isto é, como um enredo sem intencionalidades. Nesta perspectiva, a literatura é luz, expressão, força, luta, política e armamento de guerra. O autor não foge a regra, visto que, ele é o responsável por produzir a literatura. O autor ao assumir as vestimentas de criador da narrativa literária passa a ser o articulador de toda essa teia de expressividades em suas mãos, desta maquinaria tão expressiva e poderosa.
 Fazer a avaliação de uma obra exige bastante do leitor, ainda mais quando se trata de um livro tão complexo como Kafka: por uma literatura menor. Ele não é uma leitura fácil de ser feita, porque, para uma compreensão mais ampla e eficaz de sua produção seria interessante que o leitor tivesse um conhecimento prévio acerca das obras de Kafka que são citadas e exemplificadas ao longo de toda a obra como, por exemplo, a Metamorfose e o Processo.
Contudo, ao trazer à luz a temática da literatura menor os autores o fazem de maneira extraordinária, nós fazendo refletir em cada linha e nas entrelinhas sobre a temática transcorrida durante as páginas. E o mais interessante é que toda esta reflexão pode transbordar o campo da literatura e levar-nos a pensar a questão menor e minoria em outros âmbitos da sociedade como, por exemplo, o escolar, que é por maestria o campo principal de atuação de todo estudante de licenciatura. Assim, poderemos enxergar com mais criticidade as pluralidades existentes na sala de aula e dar voz e ouvidos para que elas sejam além de pronunciadas, ouvidas.
Por todos estes motivos elencados anteriormente recomendo esta obra para os estudantes de licenciatura das mais variadas áreas de conhecimento: história, letras, filosofia, sociologia, entre outras, para que possam questionar, através dessa narrativa, a função e o poder que a literatura tem sobre a sociedade, assim como ajudá-los a refletir, a ter uma visão cada vez mais ampliada da sociedade e de suas pluralidades, representações, identidades, entendendo que elas não podem ser representadas por apenas uma ideia, uma norma, mas que também merecem espaço e voz.

HERANÇA IMATERIAL (GIOVANNI LEVI) RESUMO DO CAPÍTULO 3. HISTÓRIAS DE FAMÍLIA: OS NÚCLEOS PARENTAIS.


Este capítulo é dividido em oito partes. No primeiro ponto veremos que o autor faz que um levantamento em relação ao território e ao tempo em que foi observado. Neste caso foi retratado o território de Santena durante o século XVII. Para tanto, foram analisados cerca de 32000 ocorrências documentadas, entre elas, os documentos de nascimento, casamento, morte, compra, falência, colheita, homicídios, entre outros. Entretanto, como existiam muitas lacunas e as fontes raramente entravam em consenso foi realizada uma reconstrução imaginada de como tudo se desenvolveu, pois pouco se sabe dos motivos e dos acontecimentos que levaram as pessoas a procurarem o exorcista Giovan Battista. É importante salientar que de todos os documentos vistos a maioria, quase de maneira unânime, não são representados os pobres, às mulheres, e as crianças. E quando os são ocorre de maneira passiva.
No segundo ponto o autor fala um pouco das características do território. Apontando-o como autônomo e de status ambíguo. Era localizado em uma planície de leve declínio. Não temos como ter certeza do número de famílias que lá estavam, porém eram em média sessenta famílias e em seis delas as mulheres que chefiavam a casa. Apenas uma família era definida como miserável.
No terceiro ponto o autor abordou as propriedades e as características das terras de Santena, as definido como aráveis e de quatro categorias. Os melhores terrenos estavam nas mãos dos senhores ou eram de patrimônio eclesiástico, administrados por meio de cultura de parcerias. Abaixo dos proprietários mais ricos e dos arrendatários existia um grande número de camponeses, esses que praticavam um plantio de subsistência e também outras atividades como a do setor têxtil.
No quarto ponto o autor chamou a atenção para o discurso sobre a estratificação social ao afirmar que ela não pode ficar limitada apenas as dimensões das propriedades, e nos conduz para uma compreensão ainda maior que é as das estratégias familiares complexas. Estas que poderiam resultar em mecanismos fatais, que definiam a sobrevivência ou o desaparecimento de uma família.
Do lado oposto as redes formais das relações de consanguinidade ou de alianças existiam complexas estratégias de escolha, de integração, que formavam um organismo familiar elástico. Estas estratégias poderiam definir a vida ou a morte. Eram estruturas familiares, mecanismos, redes de amizade, vínculos formados em linhas verticais de dependência. Portanto, neste contexto podemos definir a família como uma comunidade de resistência, formada por solidariedade a fim de possuir fontes de favores e trocas de informação, assim as análises das famílias de Santena foram além das residências.
No quinto ponto foi retratada a família de Geovan Batista Peroni. Ele casou com Lúcia após a peste de 1630. Tiveram muitos filhos. Morreu jovem e a condição para herança dos filhos foi permanecerem juntos sobre o comando do primogênito que era Giovan Domenico. Ele acabou sendo visto pelos demais como um pai. Mais tarde Secondo e Bernadino passaram a cuidar de Vignosso, e Giovan Domenico e Giovannini cuidaram do Broglia. E a força do grupo consanguíneo continuou intacta, pois ela estaria, neste caso, ligada a separação das residências. Entretanto viver junto poderia não significar viver na mesma casa, por isso, a eles ainda era dado o direto a herança.
Outros dois membros da família, Antônio e Giovani, eram perseguidos pela justiça criminal, pois eram desgraçados aos olhos do príncipe por um motivo ao qual não temos conhecimento. Tiveram que viver fora da comarca. Foi um período difícil para família também por outros acontecimentos. Giovan Domenico morreu, mas antes disso fez um testamento que proibia os filhos de se dividirem antes de completar 22 anos. Quem fosse embora era excluído da herança.
Eles ficaram sob a tutela do tio Gioannino. Então houve uma troca de terras Bernardino e Secondo se mudaram para Broglia, que era maior, e Gioannino com os filhos e os sobrinhos passaram a trabalhar em Vignasso. Em 1681 Antônio e o sobrinho Giovan receberam indulgência e voltaram.
Os anos de 1690 foram bastante difíceis, pois foi um ano de crises dramáticas, período de guerras, más colheitas e o mau tempo que durou muitos anos. Em 1693 morreu Gioannino e Antônio se tornou o novo chefe da família. Em 1701 morreu Antônio deixando seis sobrinhos adultos e os seus três filhos. O novo chefe da família passa a ser Giovan Battista Chiessa, o mais velho dos sobrinhos. Com isso, podemos perceber formas elásticas que se adaptam as situações que o ciclo da vida, os acontecimentos políticos e econômicos provocam. Esses indivíduos são conscientes das margens de imprevisibilidade e, por isso, era uma sociedade em busca de segurança, eram pessoas estratégicas e ativas.
Porém não podemos deixar de destacar que existiam rivalidades pelos contratos e jogos complexos entre propriedades que quebram esta rede que aparentemente é estável. Outro ponto que vai destacar é sobre a exclusão das mulheres no processo de herança que era bastante nítido. Até mesmo os dotes eram incompatíveis com o nível de riqueza que a família possuía. Eram entre 100 e 200 linhas. Algumas mulheres, inclusive, têm um papel muito forte na família, quando o marido morria deixava garantida a ela uma rica alimentação e a tutela dos filhos menores ao lado do cunhado que assumia o papel de chefe da família.
Como podemos ver no caso dos Perone a posse de terra foram fundamentais durante as crises e ao longo de todo o processo de vida deste grupo de irmãos como, por exemplo, a perseguição da Justiça, as mortes precoces dos homens adultos, e o excesso de filhos e sobrinhos a serem sustentados. Assim, o mundo mental no qual teve lugar à pregação de Chiesa era uma sociedade que estava em busca de segurança.
No sexto ponto o autor fala de outras grandes famílias de arrendatários. Os Mosso tiveram a estratégia ainda mais rica, além de combinar arrendamento eles também tiveram encargo de agentes de um senhor feudal residente em Chieri. Entretanto basicamente seguiam o mesmo modelo familiar do grupo anteriormente exposto.
No sétimo ponto é retratada a história dos Domenino. Augusto Domenino morreu bastante velho deixando duas filhas e um filho Giovan Mateo. É um núcleo isolado e, portanto, tem um equilíbrio inseguro, porém não impediu que Giovan Mateo continuasse o trabalho do pai na mesma terra. Na época da morte do pai ele tinha apenas um filho que carregava o nome do avô e nas mesmas terras vivia outra família de arrendatários.
Depois de quatro anos da morte do pai Giovan começa uma disputa com Giacomo Gillio, o vizinho, este embate acabou em uma agressão física na qual resultou em uma ferida e posteriormente na morte de Giovan. Não se sabe o motivo da briga. Giovan deixou a sua mulher viúva, Maria, com os dois filhos, um menino e uma menina, ela ficou como titular do contrato de colonato e teve também que pagar todas as dívidas que ficaram do marido, inclusive da herança que cabia as suas duas irmãs, 50 liras para cada uma, conforme o testamento paterno.
Maria pagou todas as dívidas e continuou vivendo ao lado do homem que matou o seu marido e foi assinado um acordo para a convivência e, assim, a briga teve fim. Maria começou a investir em um estábulo. Terra onde ela poderia viver uma vez terminado o arrendamento. Ela encontrou outra forma de investimento o empréstimo de dinheiro. Uma boa parte do dinheiro que a mãe dela deixou para o seu neto ainda menor de idade acabou por torna-la uma das mais importantes protagonistas da rede de crédito necessário às famílias camponesas para pagamento dotes e outro.
Em 1683, a sua filha Ana Marguerita casou-se com Giuseppe Burso e passou a ter direito, além do dote, a metade dos bens pai que com a morte prematura não havia sido permitido que ele fizesse um testamento que a excluísse da herança como era de costume. Pois as mulheres acabavam por fazer parte de outra estirpe.
Maria se encontrou em dificuldade juntamente com filho iniciando uma briga com Ana. Entretanto, a terra foi dividida e a Ana foi entregue 1200 liras de créditos e promissórias. O filho Agostino já era maior de idade. A terra era pouca para se viver e as mãos insuficientes para cultivá-las. Chegou o momento de pensar em uma sucessão. Mas as recentes Desventuras não permitiram que Agostinho conseguisse um bom matrimônio ele acabou por ficar com uma moça pobre, sem dote e com pouco enxoval. Ela logo engravidou e trouxe ao mundo um filho. Poucos dias depois soldados invadiram e saquearam a casa na qual moravam e onde a sua esposa ainda se recuperava do parto. Agostino foi morto e 15 dias depois morria também o filho recém-nascido. Maria já velha não apareceu mais os documentos. Ela se perguntava sobre sua falta de sorte e encontrou no demônio a explicação, ele a tinha possuído e por esse motivo se fez exorcizar por Giovanni Battista. Caderninho das libertações ela foi registrada na data 17 de julho de 1697.
No ponto oito o autor esquematiza o comportamento desse grupo caracterizando por alguns itens:
a. Aliança entre famílias co-residentes, laços de linhagem masculina.
b. Diversificação das atividades entre arrendamentos e pequena propriedade.
c. qualificação profissional de um membro da família.
d. Dependência clientelar.
e. Estratégia do dote.
 f. A endogamia.
g. A tutela e usufruto.
h. Os atos criminosos e as manifestações de hostilidade em relação a pessoas externas ao grupo parental são assumidas como responsabilidade coletiva sem que haja uma exclusão do réu ou uma diminuição do prestígio do grupo como um todo.

O HISTORIADOR E A PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO CULTURAL


CHUVA, Márcia. O ofício do historiador: sobre a ética e patrimônio cultural. In: IPHAN. Anais da I Oficina de Pesquisa: a pesquisa histórica no IPHAN. Rio de Janeiro: IPHAN; COPEDOC, 2008.

A relação do oficio do historiador com o campo de preservação do patrimônio cultural do Brasil pode ser materializada de duas formas, tanto eles podem agir como investigadores de todo o processo que leva a preservação do patrimônio, quanto como próprios agentes que a realizam. O patrimônio, seja ele monumento ou sítios selecionados, pode ser constituído de maneira consciente ou inconsciente. Ele faz com que as representações da nação continuem vivas perante a sociedade através de uma ação que produz o rememorar, o recordar que está entrelaçado no objeto.
Entretanto, a história não foi o primeiro campo de conhecimento responsável por observar e estudar a preservação do patrimônio cultural, isto é, não foi o primeiro a usá-la como objeto de investigação. Sendo a antropologia e, em seguida, a sociologia os primeiros campos a realizarem estudos sobre as práticas de preservação de patrimônios no Brasil. A palavra patrimônio, antes de tudo, deve ser pensada enquanto a sua função de formar, construir, inventa, representar, valorar grupos de identidades.
Para tanto, existem algumas profissões que se destacam na formação do patrimônio, como seria o caso da arquitetura. O autor traz o arquiteto Lucio Costa como um representa de importante relevância para a preservação cultural no Brasil, pois ele foi autor de diversas ideias na área. Outros profissionais que têm bastante propriedade para definir acerca de objetos passíveis de se tornarem patrimônios são: o museólogo; o arqueólogo; e o antropólogo.
Na década de 1990, a noção de patrimônio cultural passou a ser cada vez mais amplo, inclusive, passou-se a sofrer um processo de descentralização nacional e ganhar um caráter mais particular, mais local, ao mostrar um país mais diversificado. A ação de representação que aborda o âmbito local vai de encontro às interferências da globalização que já vinham a influenciar o Brasil desde a década de 1970.
Contudo, existia-se a preocupação em levar o patrimônio cultural, considerado de valor universal, para o âmbito internacional para que houvesse toda uma valorização dos bens e para que eles fossem conhecidos e reconhecidos por toda a humanidade. Portanto, fazer parte da Convenção do Patrimônio Mundial era de suma importância, visto que, eram eles que indicavam os bens culturais e naturais que poderiam ser escritos na Lista de Patrimônio Mundial.
Com a internacionalização dos patrimônios houve uma participação efetiva do estado, além de uma ampliação na definição de patrimônio que perpassam a ideia de uma identidade nacional e focam a diversidade cultural brasileira. Além de, através de um olhar mais voltado para a antropologia, passarem a focar no processo, direcionando, desse modo, as práticas cotidianas, as manifestações culturais dos grupos étnicos. Como resultado, a partir da década de 1980, foi realizado o tombamento de vários espaços, entre eles, os terreiros de candomblé.
Foi somente por meio da Associação Nacional de História que foi realizado uma maior participação dos historiadores na ampliação do patrimônio cultural. Também teremos um diálogo quando foi inserida a temática nas diretrizes curriculares do Ministério de Educação para a formação em historia.
Então, podemos concluir que a história se insere tardiamente nessa discussão apesar desse estudo está disposto quase que naturalmente na disciplina. Sendo assim, cabe ao historiador tomar para si a temática de patrimônio cultural e saber usá-la de acordo com as especificidades da sua profissão, podendo conferir ao objeto sentidos e significados, isto é, um enredo verossímil ao passado daquele documento. Com isso, o historiador confere ao patrimônio sentido.